terça-feira, Julho 07, 2009

A revolução da linguagem (Resenha)

RESENHADORES: Odair Varela - Samira Gomes

O AUTOR: David Crystal
DAVID CRYSTAL nasceu em 1941 na Irlanda do Norte. Estudou no University College, Londres, onde obteve seu doutorado em 1966. Foi professor titular de lingüística na Universidade de Reading entre 1975 e 1985, e atualmente é professor honorário de lingüística na Universidade de Wales, em Bangor. É autor de diversos livros, entre eles o Dicionário de lingüística e fonética... (www.zahar.com.br)

O LIVRO: A revolução da linguagem
A obra aparece, segundo o autor, como “uma tentativa de enxergar mais além” (CRYSTAL, 2005, p. 11), tentando trazer uma prespectiva actual sobre as tendências linguísticas já discutidas nos seus outros três livros publicados entre 1997 e 2001: English as a Global Language, Language Death e Language and the Internet.
O livro tem a edição da Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro com publicação de 2005.



O ESTUDO: Recensão do livro A revolução da linguagem, David Crystal
David Crystal, no seu livro A revolução da linguagem, propõe-se a fazer um estudo sobre um tema do qual não se conhecem muitos relatos: as revoluções de que a linguagem está sujeita. Com o livro a apresentar-se dividido em capítulos, Crystal desenvolve didacticamente os factores que segundo ele influem e caracterizam essa revolução.


1. O futuro dos “ingleses”
O autor descreve uma estranha dicotomia: quanto mais falantes de inglês há, menos se fala o inglês nativo, pois quanto mais uma língua se espalha, mais ela muda. Em cada região aonde o inglês é adoptado, ele sofre adaptações linguísticas que reflectem necessidades comunicacionais. Há adaptações lexicais, com vocábulos a ganharem novos significados e/ou palavras nativas a serem incorporadas no vocabulário. Essa inclusão de expressões emprestadas é que torna o inglês uma “língua-aspirador” (CRYSTAL, 2005, p. 38), que suga termos com muita facilidade. Isso, aliado ao facto dos novos falantes se comunicarem em simultâneo em duas ou mais línguas, provocando o fenómeno de “mudança de código” (Crystal, 2005, p. 40), é que vem estimulando o aparecimento do que Crystal (2005) chama de “novos ingleses”.
Para o autor, ser-se bilingue ou multilingue é uma condição inata do ser humano, pelo que ele preconiza como possível o surgimento de um mundo triinglês, com três níveis: o básico (ou dialecto familiar), o inglês-padrão nacional (aprendido na escola) e o inglês-padrão internacional (que não pertenceria a nenhuma região em particular). Isso provocaria o aparecimento de falantes tridialetais do inglês.
Para terminar o primeiro capítulo, Crystal questiona o futuro da identidade das outras línguas quando uma língua se torna dominante em um país e que efeitos poderia ter a nível mundial se o inglês se tornasse língua única, o que seria, segundo Crystal (2005) “um desastre intelectual de uma escala sem precedentes”.

2. O futuro das línguas
As línguas tendem a coexistir em permanente contacto. Essa concomitância trás vitalidade e, trás também, o empréstimo de palavras. Esse empréstimo é algo bom, segundo Crystal (2005, p. 58), “… valorizo cada empréstimo que tenho em meu reportório linguístico…” e os que se opõem a tal prática não conseguirão vincar a sua opinião pois, “…que a língua humana não pode ser controlada” (CRYSTAL, 2005, p. 56). Para o autor existem dois tipos de empréstimos de palavras: para aquelas que nunca foram expressas antes numa língua e para aquelas que já tinham sido expressas de forma aceitável na língua nativa. Essa oposição incide particularmente sobre esse segundo tipo de empréstimo, pois receia-se que essa nova palavra venha a substituir a anterior, receio esse infundado na opinião de Crystal (2005, p. 56), pois “…a nova palavra não tem de substituir a antiga, mas pode suplementá-la”.

O autor traz-nos um dado preocupante em relação às ameaças que recaem sobre as línguas: “…em média, uma língua morre a cada duas semanas” (CRYSTAL, 2005, p. 58) e identifica o inglês como agente decisivo no desaparecimento de línguas em várias partes do mundo. E quando é que uma língua morre? Segundo Crystal (2005, p. 60) “…morre quando a penúltima pessoa que a fala desaparece, pois então a última não tem mais ninguém com quem conversar”. A assimilação cultural é outro factor de ameaça às línguas. Quando uma cultura assimila outra, existem três grandes estágios: primeiro, há uma grande pressão sobre a população para que use a língua dominante; segundo, há um período de bilinguismo emergente, em que as pessoas expressam-se com fluência na língua dominante mas ainda fazem uso da antiga; por fim, os jovens adquirem maior domínio da língua nova e não encontram necessidade de usar a antiga.

Para combater essas ameaças o autor lança como grande desafio do século XXI a documentação das línguas (gravar, analisar e escrever), pois é imprescindível tanto a nível educacional como para a preservação da diversidade intelectual e cultural.

3. O papel da Internet
Segundo Crystal (2005, p. 75), “A aquisição da Internet pelo público foi o terceiro elemento que contribuiu para o carácter linguístico revolucionário da década de 1990”. Ela trouxe novas formas de interacção humana, condicionadas pela capacidade linguística produtiva (através do teclado) e pela capacidade linguística de recepção (através da tela). Apesar de agora ser possível uma interacção simultânea em várias conversas, essa tecnologia peca pela falta de retorno simultâneo de uma conversa face a face. O autor introduz um novo conceito, o netspeak, que “…é mais compreendida como uma linguagem escrita que foi empurrada em direcção à fala do que uma linguagem falada que foi escrita.” (CRYSTAL, 2005, p. 89). O netspeak é uma nova forma de se comunicar que mudou a personalidade formal das línguas e trouxe novas oportunidades às linguas que a usam. O caractér revolucionário da Internet deve-se também ao facto de oferecer um espaço para todas as línguas, sem excepção. Este espaço faz com que uma língua tenha uma presença real mesmo que ela seja minoritária, sendo somente condicionada pela dificuldade de se representar as letras de uma língua com exactidão no teclado. Para o autor, essa proliferação de línguas na Internet é de se louvar pois “a minha impressão é que o futuro do multilinguismo na web parece promissor.” (CRYSTAL, 2005, p. 101).

4. Depois da revolução
Após apontar os factores que estão na origem dessa revolução na linguagem (o surgimento do inglês como língua mundial, as ameaças às línguas e a Internet), o autor incentiva as pessoas a se apropriarem dos benefícios que dela advém, pois “…como sempre ocorre nas revoluções, compete aos indivíduos tirar proveito delas.” (CRYSTAL, 2005, p. 104). Actualmente, na nossa aldeia global, é-se requerido às pessoas que se tornem multilingues, não significando com isso que se domine por completo as línguas, mas que haja “…uma mistura dinâmica de diferentes níveis de competência, que estão sempre se modificando conforme mudamos de circunstâncias…” (CRYSTAL, 2005, p. 106). Nessa condição de multilinguismo não será necessário traduzir-se tudo de uma língua para outra, porque conforme Crystal (2005, p. 108), “O multilinguismo não se desenvolveu para nos capacitar a traduzir tudo para outras línguas, mas a fim de satisfazer as necessidades comunicativas pragmáticas de pessoas e comunidades individuais”. Deve-se, portanto, avançar com a tradução somente quando necessária e exequível.
Através de uma política linguística inclusiva, valorizando as línguas de igual forma e de um contacto desde cedo com as línguas é que se pode lidar com esses novos conceitos que emergiram com a revolução linguística. Para Crystal (2005, p. 113) “…o único conceito que se relaciona bem com o mundo multilíngue é o do portfólio de línguas […] É isso que precisa ser operacionalizado no currículo das escolas e nos demais lugares”.
É preciso que as pessoas tenham consciência da existência e da dimensão do problema das ameaças às línguas. Mas como conseguir isso? A resposta, segundo o autor, está nas artes, pois “…se queremos encontrar um meio de passar a mensagem sobre línguas ameaçadas para todos de forma mais directa e simpática, deveríamos usar as artes ao máximo.” (CRYSTAL, 2005, p. 121). Através das artes é possível ao problema alcançar maior visibilidade, tanto nos meios de comunicação como na escola e principalmente nas casas.


A ANÁLISE: Apreciação Crítica
O livro A revolução da linguagem, de David Crystal é uma obra bem conseguida que transmite informações científicas de forma agradável e criativa. Com uma linguagem acessível, o autor consegue expor as suas teorias de maneira compreensível ao longo de todo o texto.
Apesar do livro ter como título A revolução da linguagem, o autor foca-se em particular na língua inglesa, estudando os factores que lhe deram primazia e, também, as suas condicionantes. Crystal identifica diversos domínios que tornaram o inglês preeminente, desde a política (com o inglês a ser usado de forma oficial ou como língua de trabalho na maioria das organizações internacionais), passando pelo cinema e música popular, bem como a educação e comunicações sem esquecer a própria Internet.
De leitura fácil, o livro procura despertar na consciência dos leitores a necessidade de se preocupar em proteger as línguas e, como essa é uma tarefa de todos, o autor visa atingir um público vasto, não selectivo, onde trás um forte apelo: “Consciencializar as pessoas do sentido de ‘alerta vermelho’ da questão em escala global é, provavelmente, a iniciativa linguística mais crítica a ser tomada no novo milénio.” (CRYSTAL, 2005, p. 73).
O autor remete as referências das citações para o fim do livro, o que pode tornar a verificação bibliográfica algo difícil, mas todos os capítulos estão bem estruturados e concluídos sempre de forma sintetizada.
Durante a leitura não é fácil evitar-se transpor essas experiências para a realidade da língua Cabo-verdiana e levantar-se certas questões: estará ela ameaçada de extinção? Se sim, em que estágio nos encontramos? Que políticas de revitalização adoptar? E, como divulgar a nossa língua através da Internet se os teclados não estão configurados para reconhecer todos os nossos caracteres?
Em suma, A revolução da linguagem, de David Crystal é uma obra de referência com conceitos novos e interessantes e é finalizado com recomendações pertinentes. Recomenda-se.




Bibliografia
CRYSTAL, David, A revolução da linguagem, trad. de Ricardo Quintana, Jorge Zahar Editor, Ltda., Rio de Janeiro, 2005

JORGE ZAHAR EDITOR, Catálogos de Autores, David Crystal, Disponível em: <http://www.zahar.com.br/catalogo_autores_detalhe.asp?aut=David+Crystal>. Acesso em: 22 de Junho de 2009

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